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Nenúfar

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

Nenúfar

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

Escrever é triste

13.10.18, Nenúfar

 

 

 

 

“Porque começou a escrever”? “Porque escreve”? As perguntas foram-me lançadas à cara, sem qualquer preparação prévia. A meio metro de mim, numa manhã em que os Tristes andaram a ser entrevistados num inspirador jardim lisboeta, um microfone e uma câmara aguardavam a minha resposta. Dois, três segundos de hesitação, e saiu-me: “por necessidade”, “porque a minha vida paralela não podia continuar aprisionada num recanto fechado e inacessível da minha cabeça”.

Isto, dito assim, até pode parecer que tinha uma vida dupla, que, fora de portas, e do alcance da família e dos amigos, ia ali à cabine telefónica mais próxima mudar de roupa e vestir a pele de personagens que guardavam segredos inconfessáveis. E quem o pensar não anda longe da verdade. Desde que me lembro de existir, alimento uma vida paralela onde vivo vidas de outros. Desde o primeiro dia em que me contaram uma história, assentou arraiais no reduto mais privado da minha intimidade uma existência paralela, que tem lugar num mundo de fingimentos e fantasias, e que corre a par da sucessão de atos que faz o meu dia-a-dia.

Ao que julgo saber, isso não fez de mim um alienado anti-social, ou um hipócrita em quem não se pode confiar, e muito menos um pobre infeliz à procura de satisfação e realização em identidades forjadas. Isto porque todas as vidas paralelas que vivi e continuo a viver são as que a ficção me dá. As que histórias empolgantes, personagens arrebatadoras e lugares de maravilhamento me trazem. E que, apesar de imaginadas, inventadas, fantasiosas, acabam invariavelmente a cruzar-se com a minha rotina de acontecimentos diários. O modo como se cruzam as histórias a fingir com as verdadeiras, o efeito que as primeiras provocam nas segundas, é matéria que não cabe aqui, num texto de meia dúzia de linhas. Até porque, ao longo das dezenas de textos que deixei no Escrever é Triste, não fiz outra coisa senão a de chamar a atenção – umas vezes de megafone na mão, outros sussurrando ao ouvido, como as circunstâncias impunham – para o poder transformador das palavras, das imagens e da música de outros. Eu disse transformador, podia ter dito redentor, inspirador, enriquecedor.

No meu caso particular, podia ter dito salvador. Não fossem as histórias imaginadas de outros, não fosse a minha vida paralela, a minha outra vida pouco ou nenhum sentido teria. Sem essas histórias, não teria, provavelmente, conhecido muitas das pessoas mais importantes da minha vida. Não teria tido a inspiração e a coragem para tudo aquilo de que me orgulho. Não teria dado aquele passo decisivo que tantas vezes faz a diferença nas nossas escolhas. E, provavelmente, outros não dei porque me faltou o impulso de tudo aquilo que ainda não li, que não vi, que não ouvi, que é quase tudo.

Onde surge o “porque escreve?” lá de cima, onde surge o Escrever é Triste nesta história de vida, torna-se fácil de perceber. Sem a escrita, a do Escrever é Triste sobretudo mas também a de todas as que o antecederam, sucumbiria como Sherazade se finaria se não tivesse histórias para contar. Sem a escrita do Escrever é Triste, não poderia devolver ao mundo tudo o que o mundo de ficção me trouxe, que foi quase tudo do que sou. Não conseguiria libertar a minha consciência do peso que foi e é guardar só para mim os segredos e mistérios de décadas de uma vida dupla.

Agora, é tempo de o Escrever é Triste dar lugar a outras escritas. Ficará, para sempre, com lugar cativo no sítio onde a estrada da minha vida terrena se cruza com as alamedas de acesso reservado (quase sempre sombrias, porque eu sempre fui de preferir “as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo de artifício dos refrões fáceis”) a que a ficção, e imaginação que dela nasce, me levam. Em nome de todos os que fizeram o Escrever é Triste, agradeço a atenção com que nos leram ao longo destes últimos sete anos. À nossa modestíssima escala, esperamos ter feito despontar ou crescer algumas vidas paralelas por aí. Até breve.

 

Diogo Leote