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Nenúfar

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

Nenúfar

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

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23.12.20, Nenúfar

 

 

O PRECIPÍCIO ERA O QUOTIDIANO
Preparava-se para mais um Natal.
Os filhos ainda pequenos ficavam com a ex.
Ele estava no desemprego.
(Os miúdos queriam telemóveis ).
João não tinha dinheiro sequer para se manter até ao fim o mês.
Desde que se divorciara vivia com um colega numa escassa casa dos subúrbios.
Ainda amava Raquel. Mas ela pedira o divórcio a bem .
Curiosamente foi quando a empresa o dispensou que tudo eclodiu.
Raquel era professora. Não sabia se encontrara outro homem ou não.
Quando estava com os filhos perguntava se a mãe tinha novos amigos.
- Que estava sempre ou no computador ou no telemóvel ou a tratar das lides domésticas.
João sabia de antemão que todos estavam o máximo tempo possível na realidade virtual.
Era a nova maneira de comunicar.
Nos últimos tempos notara que a mulher evitava momentos de intimidade.
Mas ele lá ia tendo algum dinheiro para uma ida ao centro comercial. Roupas de marca ou apetrechos de smartphones.
Após o despedimento enviou o curriculum a muitas empresas.
- Que já não era novo. Tinha trintas...
Se lhe ocorria trabalhar noutra área , tinha estudos a mais.
Um inferno.
Com o desemprego e o divórcio ficou sem chão.
Não sabia o que havia de fazer.
(Aliás a sogra nunca gostara dele).
Não havia restauração ou turismo onde trabalhar, com o confinamento.
Havia ,isso sim, as levas de trabalhadores para as grandes propriedades agrícolas. Mas era um regime de escravidão.
Os miúdos estavam sempre à volta da mãe e sobretudo de uma tia que , essa sim, lhes comprava tudo.
Agora , apesar das dificuldades, trabalhava nas obras e ajudava um colega eletricista e canalizador.
Eram sobretudo áreas domésticas ou condomínios.
Uma vez, o colega disse-lhe para se desenrascar com uma casa de luxo no centro da cidade.
Foi.
Era um duplex. Foi recebido por uma mulher de pijama ,meio adormecida.
Era para colocar umas lâmpadas no teto.
E se a conseguia desenrascar com uma pequena coisa no computador.
Verificou os apetrechos.
Trazia consigo lâmpadas.
Quanto ao computador era tudo uma questão de o desligar da corrente e de voltar a ligar.
A mulher de pijama disse-lhe para ver o LCD de uma das divisões.
Fez o mesmo. Viu o comando. Lá acertou.
De repente ela dispara,
- Quer trabalhar na minha firma a fazer recados destes ?
- Não sei. Depende de quanto me pagar.
- Preciso alguém de confiança. Sabe fazer IRS ou IRC?
- Sim. Sou de gestão.
- Então eu depois ligo-lhe.
Era o Natal. A mulher de pijama ainda não o tinha contactado.
Ia continuando a fazer mini obras
Numa anterior vida fora feliz. O futuro parecia ser uma prancha para o êxito.
Quando às vezes estava sozinho no apartamento esconso pensava que tivera tantas expetativas e que quase nada se tinha concretizado.
Nem nunca mais namorara.
Quando conheceu Raquel pensou ser ela a última mulher da vida dele.
O dinheiro era o eixo central de uma sociedade consumista.
Dentro de átomos e átomos de desespero apenas os filmes que guardava no seu telemóvel . A Raquel sorrindo e os filhos.
O pasto do dia a dia num cronómetro imparável.
O precipício era o quotidiano.
 
ceciliabarreira

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