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Nenúfar

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

Nenúfar

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

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01.11.20, Nenúfar

 

Amavam-se. Mas a distância física era inimiga . Ela , um marido ciumento. Ele ,sem quase poder recorrer às redes , e em telefonemas rápidos. Era
a mulher, os filhos, um mundo galopante.
Antes da pandemia , tirava algum tempo e deslocava-se até à cidade da amada.
Agora era de todo impossível.
Aliás, era inalcançável estar com ela. O marido colocava muros intransponíveis.
Nos rápidos telefonemas ,ele ao ar livre e de máscara, sentia-se um ovni face a uma situação tão drástica.
Ambos se tinham conhecido no Facebook. Algures há uns dois anos.
Jorge deslocava-se quase sempre até à cidade da amada para um curto espaço de tempo aceder à presença física.
Ela amava-o, mas não queria pôr em causa o casamento.
Jorge desmedido continuava a fazer centenas de quilómetros para a ver.
Abraçavam-se com o paladar das passionalidades não permitidas.
Um dia , enlaçados, foram vistos pelo filho mais novo de Julieta.
O adolescente perguntou quem era aquele homem.
Atrapalhada , Julieta disse
- Um amigo que está a morrer.
- Com a COVID?
- Não, de cancro.
-E tens a certeza de que ele não está contaminado?
Jorge ficara petrificado.
Aqueles breves momentos já não podiam acontecer.
Tentavam o WhatsApp, mas era um caos. Os filhos de Julieta , atentos.
Jorge , impotente.
(Começou a sentir ciúmes doentios do marido de Julieta. Sabia que a felicidade não bafejava as relações proibidas).
-Elisa sentia o desnorte do marido. Há muito tempo que não havia sexo. Ele referenciava o trabalho a a pressão inerente-.
Jorge por vezes telefonava a Julieta , mas ela já não atendia.
Um dia ligou mais uma vez . Do outro lado, a voz grossa do marido. Desligou .
O que se teria passado?
Não podia mais. Amava compulsivamente.
Conseguiu uma carta de permissão para se deslocar à cidade de Julieta.
E ,como um louco, colocou-se nas imediações do prédio para verificar quem saía ou quem entrava .
(Viu o marido a sair e a entrar várias vezes. Mas os filhos estavam com a mãe…)
Sentiu-se ridículo , debaixo daquela arcada espúria.
Com raiva de si próprio mete-se no carro e regressa a casa, com a pressa de quem foge .
Num mail ,entretanto recebido , Julieta comunicou que já tinha um outro número de telemóvel. O marido apropriara-se do anterior.
Jorge reconhecia que aquele caminho era o nada.
Desfeito . Inquieto . Sentia que tinha de calar os impulsos.
Os tempos eram iníquos e ferozes.
(Quando olhava para Elisa via a pessoa amiga que estivera sempre presente. Os filhos , adolescentes).
Não havia lugar para as paixões. Mas sim para o esboroar dos dias.
Os amores estavam submersos nos lares confinados.
Não esqueceria Julieta, nunca.
Mas, para não se tentar, bloqueou os números de telemóvel. Também, nas redes sociais.
Tempos sombrios. O medo. Os sonhos desfeitos. As paixões caladas.
Inabitável, a noite ressuscitara o fantasma do latejar da morte.
 
ceciliabarreira